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Marcas que celebram o ordinário: como o ‘treatonomics’ e a cultura dos pequenos luxos estão redesenhando o branding do cotidiano no Brasil

O Brasil de 2025 e 2026 apresenta uma contradição fascinante para quem estuda comportamento do consumidor: em meio a juros elevados, inflação persistente e um orçamento doméstico cada vez mais espremido, as pessoas não pararam de consumir — elas simplesmente trocaram o tamanho do prazer. A viagem internacional foi adiada, o carro novo ficou para depois, mas o café especial das 10h, o cuidado com a skincare no banheiro às 22h e o episódio de série com o sorvete favorito viraram rituais quase sagrados. Esse é o coração do treatonomics: a economia dos pequenos luxos como estratégia psicológica de sobrevivência emocional.

Para as marcas, esse movimento não é apenas uma curiosidade cultural — é uma oportunidade estrutural de reposicionamento. O branding do cotidiano emerge como uma das disciplinas mais relevantes do marketing contemporâneo brasileiro: a arte de fazer com que produtos e serviços comuns sejam percebidos como micro conquistas, momentos de controle e centelhas de alegria em dias que, muitas vezes, pedem socorro. Quem entender essa lógica primeiro sairá na frente na disputa pela lealdade de um consumidor mais calculista, mais emocional e, paradoxalmente, mais disposto a gastar quando a experiência justifica.

O que é treatonomics e por que ele chegou com força ao Brasil

O termo treatonomics foi popularizado por analistas de comportamento de consumo nos Estados Unidos e no Reino Unido para descrever o fenômeno em que consumidores sob pressão financeira mantêm — ou até ampliam — gastos em pequenos itens de prazer imediato enquanto cortam despesas maiores. No Brasil, uma pesquisa da Kantar divulgada no início de 2025 apontou que 67% dos brasileiros das classes B e C declararam ter reduzido compras de alto valor no último ano, mas 54% do mesmo grupo afirmaram ter aumentado a frequência de “mimos pequenos” para si mesmos. Chocolates premium em porções individuais, assinaturas de streaming, cafés de especialidade em sachê e cosméticos de entrada de linha de marcas aspiracionais são os protagonistas dessa lista.

A lógica psicológica por trás disso é poderosa: o pequeno luxo devolve ao consumidor a sensação de agência — a percepção de que ele ainda tem poder de escolha sobre sua própria vida. Em um cenário de incerteza econômica, essa sensação tem valor altíssimo, e as marcas que compreendem isso param de vender produtos para começar a vender controle emocional. O Instituto Ipsos Brasil registrou, em levantamento de novembro de 2025, que 71% dos entrevistados associaram a compra de “algo especial para mim” à ideia de recompensa por esforço cotidiano — o que posiciona o ato de consumo como celebração de micro conquistas, e não como gasto impulsivo. Esse é o terreno fértil onde o branding do cotidiano precisa plantar suas raízes.

Como marcas brasileiras estão redesenhando sua linguagem para o dia a dia

Algumas marcas brasileiras já captaram o sinal e estão reescrevendo sua comunicação para habitar o cotidiano com mais intimidade e menos distância aspiracional. A Cacau Show, por exemplo, acelerou sua linha de produtos individuais com embalagens que trazem frases de encorajamento e autoafirmação — transformando um bombom de R$ 4 em um ritual de autocuidado. A Kopenhagen, por outro lado, investiu em pontos de venda dentro de farmácias e mercados, reduzindo o atrito entre o desejo e a compra imediata. No universo de beleza, a Boticário intensificou campanhas que celebram a rotina de cuidado pessoal como conquista, não como obrigação — uma virada de linguagem que ressoa diretamente com o branding emocional que o momento exige.

No setor de alimentação e bebidas, o movimento é igualmente expressivo. Dados da ABIA (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação) de 2025 mostram crescimento de 18% nas vendas de alimentos classificados como “indulgência acessível” — categoria que inclui sorvetes monodose, snacks premium e bebidas funcionais em lata. Marcas como Magnum e Ben & Jerry’s apostaram em campanhas que romantizam o momento do consumo solo, à noite, como ato de amor próprio. O insight de branding aqui é preciso: a embalagem, o tom de voz, o contexto de uso e até o horário de exibição do anúncio precisam ser calibrados para o ritual doméstico, não para o evento especial. Quando uma marca ocupa esse espaço com autenticidade, ela deixa de ser produto para se tornar personagem do dia a dia do consumidor.

Os princípios do branding do cotidiano: construindo relevância sem grandiozidade

Construir uma marca relevante dentro da cultura de consumo Brasil 2026 exige abandonar a obsessão por grandes campanhas de impacto e abraçar uma filosofia de presença consistente. O primeiro princípio do branding do cotidiano é a cumplicidade: a marca precisa demonstrar que entende a vida real do consumidor — com segunda-feira difícil, salário que não sobra e tempo escasso. Isso se traduz em comunicação que não idealiza, mas valida. O segundo princípio é a ritualização: transformar o momento de uso do produto em um pequeno ritual tem impacto desproporcional na memória afetiva e na lealdade. Não é sobre o produto em si, mas sobre o que aquele momento significa para quem o vive. Pesquisa da Opinion Box de fevereiro de 2026 revelou que consumidores que associam uma marca a um ritual pessoal têm 3,2 vezes mais chance de recomendar essa marca espontaneamente.

O terceiro princípio é a acessibilidade percebida — não necessariamente preço baixo, mas a sensação de que aquele pequeno luxo cabe no orçamento sem culpa. Isso envolve estratégia de portfólio (ofertas entry-level de marcas premium), comunicação de valor que justifica o gasto e até o framing do produto como investimento em bem-estar, não como gasto supérfluo. Por fim, o quarto princípio é a autenticidade emocional: o branding emocional que funciona nesse contexto não é o da emoção fabricada em estúdio, mas o da emoção reconhecida no espelho. Marcas que conseguem dizer “a gente sabe como é” com genuinidade — e não com condescendência — constroem vínculos que sobrevivem a crises econômicas e a ondas de concorrência. Esses quatro pilares formam a estrutura sobre a qual qualquer estratégia de branding do cotidiano deve ser erguida no Brasil de agora.


Sua marca está pronta para ser cúmplice do cotidiano?

Entender o treatonomics, mapear os rituais do seu consumidor e construir uma linguagem de marca que habite o dia a dia com leveza e relevância não é tarefa intuitiva — é técnica, é estratégia e é, acima de tudo, uma habilidade que se aprende. Na LAJE, os cursos de Branding, Marketing e Inovação foram desenvolvidos exatamente para profissionais que querem sair da superfície e dominar os mecanismos reais que movem o comportamento de consumo no Brasil contemporâneo. Se você quer aprender a transformar interações rotineiras em conexões emocionais duradouras, o próximo passo começa aqui.

Explore a grade de cursos da LAJE e descubra como construir marcas que não dependem de grandes orçamentos para criar grande relevância. O cotidiano está cheio de oportunidades — e quem souber enxergá-las primeiro vai liderar.

  • James Pereira
  • junho 12, 2026
  • 9:37 am

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